Fechamento de terminal da Vale pode impactar mercado global de minério de ferro

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O comércio global de minério de ferro pode sofrer interrupções depois que a Vale, maior produtora da commodity no mundo, foi obrigada a suspender temporariamente as atividades no complexo portuário de Tubarão, no Espírito Santo, por supostamente poluir o mar em Vitória (ES). O Citigroup disse que se essa suspensão durar muitas semanas, haverá uma forte reação no mercado internacional.

A Polícia Federal determinou ontem (21) que as atividades de importação e exportação fossem suspensas em Tubarão, depois que foram encontradas partículas de minério de ferro e de carvão no fundo do mar de Camburi. A decisão só poderá ser revertida caso o complexo adote medidas que possam minimizar ou acabar com a poluição.

O preço do minério de ferro caiu nos últimos três anos, à medida que os principais produtores mundiais, incluindo Vale, BHP Billiton e Rio Tinto, expandiram a oferta de baixo custo, provocando um excesso de oferta, ao mesmo tempo em que a demanda da China diminuiu. O Citi disse que o impacto de Tubarão será determinado pela duração do fechamento e pela forma com que a ação judicial vai progredir.

A estimativa do banco de investimentos é que Tubarão movimente cerca de 110 milhões de toneladas de minério de ferro por ano. Segundo cálculos da Bloomberg, esse volume representa 8% de todos embarques no mundo.

Caso o terminal fique fechado por muitas semanas, “você verá uma reação muito significativa”, disse Ivan Szpakowski, analista do Citi, de Hong Kong. Ele afirmou ainda que existem “um ou dois casos no passado, em que o Brasil ordenou a suspensão temporária de portos, mas as empresas conseguiram, na época, liminares para manter as operações enquanto o caso seguia na Justiça. Se isso acontecer, então não afetará o mercado de um ponto de vista fundamental”.

O contrato futuro SGX AsiaClear, em Cingapura, na bolsa de Xangai, chegou a subir até 6,9% nesta sexta-feira (22), para US$ 39,90 a tonelada, enquanto os contratos futuros na bolsa de Dalian valorizaram até 3,2%. O minério com 62% Fe para entrega no porto de Qingdao, na China, na modalidade custo e frete (CFR), fechou hoje a US$ 42,20 a tonelada, segundo índice Metal Bulletin.

A suspensão de Tubarão é mais uma preocupação para a Vale, que já tem que lidar com a situação do rompimento da barragem de Samarco, em Mariana (MG), que matou 17 pessoas. Neste ano, as ações da Vale já desvalorizaram 33%, acumulando três anos de baixas. A mineradora ainda foi colocada em revisão pela agência Moody’s para ser rebaixada.

De acordo com Philip Kirchlechner, diretor da consultoria Iron Ore Research e ex-CEO para minério de ferro da Rio Tinto, a Vale pode conseguir gerenciar parte do impacto no curto prazo causado pelo fechamento de Tubarão, acionando o centro de distribuição na Ásia, que fica na Malásia e tem quantidade alta de estoques.

“Isso vai permitir que eles preencham os compromissos contratuais no curto prazo. Com imprevidência, isso pode ser, na verdade, uma decisão muito inteligente para preparar essa plataforma, originalmente projetada para mistura e transbordo, mas que agora está se tornando uma boa alternativa para absorver as interrupções da oferta no curto prazo”, afirmou Kirchlechner.

Daniel Hynes, estrategista sênior de commodities do Australia & New Zealand Banking Group, disse que se a suspensão de Tubarão for por apenas alguns dias, “não haverá muita resposta nos preços, porque a Vale tem como suprir essas toneladas perdidas. No entanto, qualquer período maior que isso, pode começar a causar um impacto”.

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