Na terça-feira (1º de dezembro) foi lembrado o Dia Mundial de Luta contra a Aids, uma pandemia que já é alvo de estudos e debates há pelo menos 30 anos. Mas no Brasil, existe uma pandemia muito mais arrasadora: as mortes por arma de fogo. Se a Aids aterroriza os jovens, as mortes por arma de fogo são um pesadelo maior ainda.

Os números que revelam isso estão contidos no relatório “Mortes Matadas por Arma de Fogo” (que concentra e avalia dados de 2002 a 2012). Trata-se de uma produção da Secretaria Geral da Presidência da República, Secretaria Nacional de Juventude e Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.

O organizador dos dados, Julio Jacobo Waiselfisz, observa que o vírus da AIDS matou, no ano de 2012, no Brasil, 12.073 pessoas de todas as idades. São números e situações compreensivelmente preocupantes, que já deram origem a grandes campanhas, programas, estruturas de prevenção, proteção e/ou tratamento. “Mas as armas de fogo mataram, nesse mesmo ano, 3,5 vezes mais: um total de 42.416 pessoas, sem essa mobilização toda para enfrentar o flagelo”, aponta o relatório.

Entre os jovens, a AIDS foi responsável por 1.616 mortes; já as armas de fogo mataram 22.694, isto é, 15 vezes mais. Essas 42.416 vítimas de armas de fogo em 2012 representam 116 mortes a cada dia do ano. Número bem maior do que é noticiado em nossa imprensa sobre grandes chacinas acontecidas no país ou sobre os terríveis atentados nos frequentes enfrentamentos existentes na Palestina ou no Iraque.

Esse número de mortes é, por exemplo, ainda maior que o massacre de Carandiru, em 22 de outubro de 1992, fato de grande repercussão nacional e internacional. Com as mortes por bala, temos pouco mais de um Carandiru por dia, sem todo esse impacto emocional, seja nacional, seja internacional. “Pelo contrário, discute-se hoje se ampliar ainda mais a posse e circulação das armas de fogo”, alfineta o relatório.

A guerra nossa de cada dia

De forma direta, o relatório aponta: “O Brasil, sem conflitos religiosos ou étnicos, de cor ou de raça, sem disputas territoriais ou de fronteiras, sem guerra civil ou enfrentamentos políticos levados ao plano das armas, consegue vitimar mais cidadãos via armas de fogo do que muitos dos conflitos contemporâneos, como a guerra da Chechênia, a do Golfo, as várias Intifadas, as guerrilhas colombianas ou a guerra de liberação de Angola e Moçambique, ou ainda uma longa série de conflitos armados acontecidos já no presente século”.

No contexto internacional, analisando os dados correspondentes a 90 países para os quais contamos com informações confiáveis provenientes da OMS, o Brasil, com uma taxa de 21,9 óbitos por armas de fogo em 100 mil habitantes, ocupa o décimo primeiro lugar, atrás de países como El Salvador, Venezuela, Guatemala e Colômbia, de enorme carga de violência.

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