Conselheiro tutelar se despede do cargo com discurso emocionado

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“Tudo tem seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do céu. Depois de seis anos nesta batalha, preparei algumas páginas de discurso para este momento ímpar em minha vida”.

Assim iniciou seu discurso, já com tom de saudosismo, o ex-conselheiro tutelar, Oséias Leão, na solenidade que dava posse aos cinco novos conselheiros tutelares que assumiram dali em diante; e em 13 minutos de discurso, sem apontar culpados nem achincalhar poderes ou entidades, emocionou a plateia.

Ele fez retrospecto contando que em 18 de dezembro de 2009 assumiu seu primeiro mandato como Conselheiro Tutelar da Criança e do Adolescente, sendo reeleito e exercendo um outro com período igual de três anos. “Com a mesma garra assumimos este conselho e agora estamos aqui, devolvendo o que um dia a população de Parauapebas nos entregou”, afirmou Oseias, qualificando como ÁRDUA, porém PRAZEROSA a função de conselheiro tutelar.

Ele admitiu que ser conselheiro tutelar em Parauapebas, bem como em outras cidades, não é fácil. E argumenta que a população, por ser flutuante, é difícil de lidar e diz que talvez por isso a experiência adquirida foi grande. Segundo Oseias Leão, no dia-a-dia passou a entender o público com o qual lidava, crianças e adolescentes, pelo qual afirma ter passado a ter o devido respeito. E lembra que enquanto a população está ‘dormindo em berço esplêndido’ o conselho tutelar está nas ruas velando pelo direito violado de uma criança ou adolescente, seja pela família ou pelo próprio Estado. “O Conselho Tutelar não é o ‘bicho papão’ que nas famílias e até nas escolas é apresentado ao dizer que se a criança não obedecer irá busca-la. E nisso também é violado o direito da criança, pois ao invés de apresentar a ela seu defensor é lhe mostrado um ‘falso opressor’”, lamenta Oseias Leão.

Mas ele aponta também as instituições públicas como ‘violador de direitos’, e detalha que quando um pai vai buscar uma vaga para um filho na escola e houve que não existe a vaga, eis ali a violação do direito à educação; ou quando a criança não é atendida nos hospitais públicos ou não tem medicamentos também lhe é tirado o direito à saúde. “Mas quero dizer que muita coisa precisa se fazer. Já conquistamos algumas e não podemos retroceder nesta caminhada”, recomenda o ex-conselheiro, lembrando que os conselheiros são criticados por onde passam sendo qualificados como ‘pai’ de uma criança ou adolescente que está na delegacia ou tendo algum direito violado.

Segundo Oseias Leão nestes seis anos como conselheiro tutelar sentiu falta de Programas Sociais; e mensura que neste período recebeu aproximadamente 300 notificações de abuso sexual contra crianças e adolescentes. “Negligências e mais negligências não pode continuar. Sentimos falta de creches em tempo integral para cuidar das crianças enquanto as mães trabalham”, recomenda ele, lembrando que muitas vezes o conselho foi acionado sob a denúncia de que tinham crianças trancadas sozinhas em casa e diante da veracidade flagrada não tinha como punir a mãe, pois aquela pobre mulher precisa trabalhar para sustentar as tais crianças e não tem com quem deixar nem pode pagar uma babá com o pouco que ganha.

Ao final de seu discurso ele fez um apelo emocionado aos Poderes Executivo e Legislativo: “Criança precisa estar é no orçamento e não no papel, para não tornar em vão todo o trabalho da rede de garantia. Priorize os projetos sociais. Priorize as crianças e adolescentes, pois ela é nosso futuro”.

E encerrou com uma frase do Apóstolo Paulo: “Combati o Bom Combate; terminei a carreira, mas guardei a fé”.

Francesco Costa – Da redação

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